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E tudo começou num simples memorando, numa lista de intenções...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.05.11

 

Este rio saltou o mês de Abril, já repararam? Passou por uns rápidos tão agitados que por pouco a nossa frágil jangada se despedaçava nos rochedos laterais. Quando a água atravessa uma garganta subitamente estreita e há um desnível no leito, tudo se torna violento e ensurdecedor. Essa é a incrível força da natureza. E da vida também. A lógica da vida segue a lógica da natureza. A Marilyn desmaia de exaustão, o miúdo grita o seu nome e pergunta ao pai se ela vai morrer. O Robert Mitchum terá de a reanimar e tudo volta à rotina pacífica dos dias e das noites, mas não por muito tempo. Todos sonham com essa paz doce e amena, mas a vida terrena não permite tal ideal de vida, talvez porque a própria natureza desconhece essa quietude, e a vida exija constante agitação. Afinal, estar vivo é estar activo, é estar a mudar constantemente.

 

Neste outro filme, Jerry Maguire, há também um homem, uma mulher e um miúdo. Este filme sempre me impressionou, porque mostra uma perspectiva que raramente vemos nos relacionamentos: o início de uma colaboração baseada na inspiração de um simples memorando. O homem que se inspirou e escreveu um memorando, e com esse memorando inspirou a rapariga. Era apenas uma lista de intenções, dir-lhe-á quando se viu fora da empresa. Esta cena é das mais interessantes que eu já vi em filmes sobre as relações de poder em grandes empresas e sobre o trabalho competitivo. A rapariga acompanha-o nessa saída, inspirada pelo que leu nesse memorando. Acredita nele e segue-o. Mais tarde, ele dirá ao amigo que essa fora a razão de ter casado com ela: foi leal.

 

Bem, antes de se lançar nessa aventura dos afectos, da definição de um lugar familiar, podemos mesmo dizer que houve uma revolução na vida deste homem de discurso fácil e sorriso sedutor. A lógica da sua vida já não é suficiente. E só vê isso quando está na mó de baixo. A reacção da namorada não o satisfaz: culpa-o de ser um falhado. Talvez só nessa altura ele tenha percebido que a sua relação tinha bases muito pouco sólidas. Acaba por terminar ali mesmo o compromisso, levando ainda dois valentes murros de uma namorada em fúria.

É nesse estado, confuso e fragilizado, que aparece à rapariga leal. Um outro equívoco surge: fica encantado com o filho da rapariga. Criam de imediato uma cumplicidade bem-humorada. Também dirá ao amigo a outra razão de estar com ela: o miúdo é engraçadíssimo.

 

A cena mais sexy do filme: quando ele a leva a casa. É talvez a mais sexy que alguma vez vi à porta de casa de uma rapariga (e nos filmes americanos eles vão acompanhá-las mesmo à porta e ficam à espera do beijo). Registei a banda sonora da cena, porque a cena é deliciosa: ela no seu vestidinho preto, de alças, ele todo sedutor e insinuante.

 

É claro que, como a maioria das comédias românticas americanas, está cheia de clichés, (mas até não são dos piores, como um dia ainda hei-de aqui referir, tenho toda uma lista deles), mas o filme é, pelo menos para mim, mais do que uma simples comédia romântica.

Retrata o mundo competitivo dos agentes desportivos, mas também o mundo competitivo dos jogadores profissionais, os riscos que correm, em que um erro na sua carreira pode pôr tudo a perder.

Fala da amizade e da lealdade: não apenas do Jerry e da rapariga, mas também do Jerry e do jogador que representa.

Mostra os equívocos iniciais de uma relação amorosa e a complexidade das razões que a mantêm. E que, mesmo começando com o pé esquerdo, se pode retomar o caminho, porque o que os liga é muito mais forte do que inicialmente pensavam.

 

Mas a mensagem mais importante do filme está na discussão entre Jerry e o jogador: tens de jogar com o coração... não pode ser calculismo financeiro, tem de haver paixão.

Bem, o jogador irá despertar em si mesmo essa paixão nos jogos seguintes, sem dúvida, até ao jogo memorável, em que toda a assistência fica na expectativa quando desmaia na sequência de uma queda aparatosa. Minutos de aflição da mulher, dos filhos e do Jerry. Quando finalmente acorda e antes de se levantar, diz ao treinador, com ar malicioso: Deixem-me saborear isto só um pouco mais. Uma cena fabulosa e hilariante!

 

A família, aqui vista como um lugar-refúgio, no meio de um mundo cínico, muito competitivo e hostil. E a amizade, como base das relações, mesmo as profissionais.

A identidade como construção a partir de experiências vividas, como o que se lê no olhar de outros: o homem que ele quer ser... o homem que ele pode ser...

 

 

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publicado às 11:05

O que permanece, haja o que houver

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.12.10

 

Sim, o rio continua a navegar, agora mais calmo, mais parece um lago, quase nos podemos ver nesse espelho azulado. A Marilyn continua a cantar na sua viola para o rapazinho, e o Robert Mitchum ainda apanha peixes do rio, que à noite assa na fogueira onde também aquece o café. Por vezes conversam enquanto o rapazinho dorme, mas mais parece que desconversam. São assim tantas vezes os diálogos entre homens e mulheres. Porque será?

Gostava de vos falar de um filme que nos inspirasse a todos para entrar no ano que agora começa. Repetimos este ritual de passagem todos os anos, mas na verdade trata-se de uma continuidade, como este rio. De qualquer modo, insistimos em iniciar um ano novinho em folha, abrimos uma nova agenda, fazemos uma lista de coisas a mudar... E no entanto tudo depende da nossa convicção interior, aquela que nunca muda, a que permanece igual a si própria, a sensação de saber quem somos, haja o que houver.

Que filme nos inspira assim? A convicção interior? Tudo o que permanece? A ver se o descubro entretanto nos meus registos da memória. A tempo de entrar num novo ano que é apenas a continuidade do ano que hoje termina.

 

Aqui vai um filme que vi há cerca de um mês e que pode exemplificar, numa das suas personagens, essa permanência, esse saber quem se é, haja o que houver. Neste caso também, sobre os seus sentimentos.

Written On The Wind, de Douglas Sirk, revela-nos de novo um homem simples, leal, íntegro, e de novo num Rock Hudson que veste bem essa pele. Tal como em All That Heaven Allows, trata-se de uma personagem que se organiza de forma segura em valores da permanência: família, amizade, amor, lealdade. E para quem os sentimentos são simples e claros, o amor e a amizade são sempre acompanhados da lealdade. O amor só é revelado quando as circunstâncias o permitem e não antes, porque respeita quem ama. Não se trata, no entanto, de um amor cego, observa e avalia as qualidades da amada. A ingenuidade não faz parte da personagem, é perspicaz e responsável. E nunca abandona o amigo, só o enfrentando para a defender.

 

O filme também nos mostra como a segurança aparente de um império familiar não é base da permanência. A permanência não é exterior, é interior, está dentro de cada um de nós. Tudo o que se ergue à nossa volta pode derrocar, só a nossa convicção interior permanece, os valores essenciais. A família Hadley cai na auto-destruição e na solidão. Os nossos heróis descobrem a segurança em si próprios e um no outro.

 

A linguagem do filme é fluída, bem ritmada, e sempre elegante, à Douglas Sirk. Não há demasiada informação, apenas a essencial. É um drama recorrente. Cada personagem leva a sua bagagem simbólica: em Kyle, a dependência, a eterna adolescência, a imaturidade, a super-protecção, a perda de objectivos, o tédio de viver; em Marylee, a rejeição de Mitch por quem tem um amor obsessivo, a natureza caprichosa e infantil, a sedução, a sensualidade; em Lucy, a auto-confiança, a autonomia, o profissionalismo, a capacidade de afecto; e em Mitch, as tais qualidades da permanência referidas no início.

 

Que este e outros filmes vos inspirem, queridos Viajantes, a encarar cada Novo Ano com a convicção interior da vossa permanência essencial! Que encontrem essa segurança dentro de cada um de vós!

 

 

 

 

 

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publicado às 22:40

Descobrir a nossa natureza

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.06.09

 

Volto a colocar a jangada neste rio, às vezes calmo às vezes caudaloso, e ainda ouço a voz da Marilyn, suave e poética: I can hear my lover call... Come to me...

Já não há filmes assim, nem heróis poéticos assim...

Mas há filmes que me acompanham sempre, sobretudo dos anos 80 e 90.

Um que me tem surgido ultimamente, com a sua atmosfera poética e sensual: A Room With A View. Magnífica sequência de cenas, introduzidas como capítulos de um romance.  Magníficas personagens a interagir em cenários  deslumbrantes.

 

A rapariga que foge da sua própria natureza. Mas que vai recebendo indicações.

Ao ouvi-la tocar uma peça de Beethoven ao piano, uma das personagens dir-lhe-á a frase-chave do filme: Se a sua vida vier a reflectir a forma como toca, que vida interessante!

O rapaz que por ela se apaixona: O que aconteceu entre nós é muito raro...

A mãe que às tantas desabafa, desesperada, quando a vê a querer fugir, teimosamente: Já pareces a Charlotte!

O pai do rapaz que zela pela sua felicidade: Porque havemos de acreditar em si se mentiu a toda a gente?

 

A cena mais poética e marcante de todo o filme: o beijo em pleno campo nos arredores de Florença.

Esta cena irá escandalizar a prima solteirona Charlotte Bartlett e marcar para sempre a impressionável novelista, Eleanor Lavish, que a reproduz em livro. A história deste beijo irá surpreendê-los já em Inglaterra quando é lida em voz alta pelo noivo, o tímido e desajeitado Cecil Vyse.

 

Uma breve pausa na história para falar da fotografia e da atmosfera do filme. É James Ivory. E é Florença. E o campo inglês, aqueles jardins...

É verdadeiramente incrível como James Ivory nos consegue transportar para uma época, um ambiente e uma certa excentricidade. Em duas pinceladas coloca-nos nessa Inglaterra campestre, amável, acolhedora, numa família um pouco excêntrica: uma mãe tolerante e permissiva com os filhos, dois irmãos cúmplices, e uma certa espontaneidade genuína na forma como se exprimem emoções, sentimentos e afectos.

 

E é nessa viagem à Itália que a aventura começa. Acompanhamos aquelas duas, Lucy e Charlotte, nessa aventura, que será muito mais do que uma simples viagem, é a descoberta da sua verdadeira natureza (para Lucy) e a possibilidade de aprender a confiar na autenticidade do rapaz (para Charlotte).

Também terá uma influência decisiva no noivo de Lucy, o pobre Cecil Vyse, também ele ignorante da sua própria natureza.

Sim, esta viagem à Itália irá alterar as suas vidas de forma determinante.

James Ivory revela-nos aqui, de uma forma magnífica, a natureza exuberante, esfusiante, calorosa, sensual de Itália. Aqui a atmosfera é de uma natureza diferente: nas praças,  na cor, na luminosidade, e na sua cultura (os jovens apaixonados que chocam o velho Reverendo, mais austero, ou o duelo sangrento em plena praça pública que leva Lucy a desmaiar).

Nenhuma personagem lhe pode ficar indiferente! Nem mesmo Charlotte, que fica um pouco desorientada no meio daquelas ruas medievais que tanto fascinam Eleanor Lavish, a novelista.  (1)

 

Quando (re)virem o filme, reparem bem na troca de quartos inicial: ao ouvir Charlotte queixar-se de terem ficado num quarto das traseiras, o pai do rapaz apressa-se a oferecer-lhes o deles, que não precisam da vista. O rapaz (George) volta atrás para virar o quadro pendurado na parede, onde desenhara um sinal de interrogação.

A cena de Lucy e George (o rapaz) na praça onde ela fora comprar postais é uma das mais poéticas: Lucy desmaia ao ver todo aquele sangue vermelho-vivo, num homem jovem subitamente morto ali à sua frente. Não quer dar parte de fraca, mostra-se sempre altiva, orgulhosa, independente. Debruçam-se na ponte sobre o rio e George lança os postais à água. Estavam sujos de sangue, diz-lhe.

 

Mas voltemos à cena daquele beijo, tão sem-cerimónia, tão espontâneo, e tão genuíno. Beijo que antecipará o regresso das duas a Inglaterra e deixará Charlotte num terrível complexo de culpa, por não a ter conseguido proteger melhor.

Mas Lucy não revela qualquer perturbação. Talvez apenas uma leve irritação com algumas frases mais preconceituosas do noivo (Cecil), sobre as pessoas em geral, irritação que talvez revele uma nova visão das coisas: a sua irremediável diferença.

Aqui ficamos a conhecer melhor Cecil: a sua formatação de "homem civilizado", levada ao limite. Na forma como se exprime, como veste, como se comporta socialmente. Vêmo-lo aqui com todos os seus preconceitos filosóficos e sociais, de quem busca a perfeição e o sublime. Cecil é uma alma que se julga sensível e artística, mas sem o ser verdadeiramente, sem o sentir e viver.

 

Avancemos para a cena em que Lucy dá de caras com George, que mudara de armas e bagagens com o pai para uma pequena casa ali perto, agora convidado do irmão para uma partida de ténis.

E à cena em que Cecil lê em voz alta a descrição daquele beijo apaixonado, na nova novela de Eleanor Lavish. Lucy tenta escapar àquela situação embaraçosa (e fugir da sua confusão interior?), mas George persegue-a e consegue declarar-se: o que aconteceu entre nós é muito raro. Lucy é implacável, tem noivo. George descreve-lhe a natureza de Cecil e a sua impossibilidade de amar verdadeiramente uma mulher, pode tratá-la como uma obra de arte, que se admira e possui, mas sem a conhecer verdadeiramente.

 

Avancemos agora para a cena do passeio de Lucy e Cecil e de um outro beijo. Cecil olha em volta e pede-lhe autorização para a beijar. Lucy sorri, levemente divertida. Este beijo, tímido e desajeitado,  em perfeito contraste com o primeiro.

Mas o maior contraste ainda está para ser revelado! A alegria descontraída dos rapazes, George e o irmão de Lucy, e do excêntrico Mr. Arthur Beebe. Este trio que fora nadar no lago, irá surgir-lhes à frente repentinamente, completamente nu, em correrias divertidas. Este sim, é o maior contraste possível: a natureza no que tem de autêntico e espontâneo, e a fatiota convencional de Cecil que fica sem pingo de sangue! A simplicidade e ausência de artifícios e o protótipo do "homem civilizado".

 

Na realidade, George não é o inverso de Cecil. É apenas o que falta a Cecil para viver e sentir a sua arte sublime. É o "homem sensível", o homem curioso, ávido de filosofia e cultura, de arte e viagens, mas que busca a experiência completa, plena, sorver a vida e saboreá-la com todos os sentidos despertos.

O "homem sensível" vive os afectos: o seu amor filial é enternecedor; e o amor-paixão, quer vivê-lo em plenitude. Segue a filosofia naturalista do pai, de forma lógica: vive de forma autêntica.

E Lucy acompanha-o nesta dimensão, são de naturezas muito semelhantes.

É o que dirá ao pobre Cecil, nessa noite em que desfaz o noivado, nessa súbita despedida que deixa Cecil destroçado. Desculpem-me, mas esta cena é mesmo de partir o coração: o Daniel Day-Lewis  dá-lhe uma consistência e uma vulnerabilidade tal que a cena sempre me toca profundamente. Cecil a limpar os óculos depois de a ouvir dizer as palavras (que ela ouvira a George), que o descrevem assim de forma tão cruel!

 

Lucy é implacável, definitiva. Pensamos que irá aceitar George, mas Lucy escolhe a fuga: já está a pensar em viajar de novo, com duas senhoras idosas que conhecera em Florença e com quem se correspondera depois. Nem mais. E conta à mãe a sua última decisão: mal tome posse do seu dinheiro (herança do pai?) irá viver com uma amiga na cidade.

E é aqui que começamos a ver, em linguagem de cinema, o desenrolar final de uma escolha.

Em linguagem de cinema os "timings" são determinantes para os acasos, a coincidências, os encontros e os desencontros. Porque na vida real também é assim.  (2)

É o amor maternal que a salva desse afastamento de si própria e dos seus afectos. A mãe não tem contemplações, está francamente irritada: Já pareces a Charlotte!

É claro que isto deixa Lucy a pensar, não pode ficar indiferente! Aquelas ideias libertárias e feministas, de uma mulher que apenas desenvolve a sua dimensão social, educação e trabalho, esquecendo as outras dimensões.  (3)

É isto que a mãe lhe quer dizer: Não fujas das outras dimensões, da realização do amor, da paixão, da família, da maternidade, todas as dimensões de uma vida mais plena e gratificante.

Pelo menos foi assim que eu percebi aquele desabafo. Esta mãe é terna e benevolente com os filhos, mas não os infantiliza. Mostra-lhes as opções e os diversos cenários. É a "mulher natural", completa, a meu ver, sem grandes pretensões intelectuais mas terrivelmente sensata, que reúne as diversas dimensões femininas: afectos, prazer, alegria, família, maternidade, vida social, uma vida confortável e equilibrada. Vêmo-la a conviver, a jardinar, a rir. É uma mulher feliz.

 

E tudo parece acontecer por um mero acaso. Lucy encontra o pai de George enquanto espera pela mãe. O filho virá buscá-lo, pois já não faz sentido manterem ali casa. E confronta-a com as suas mentiras, sobretudo a si própria. Lucy assume finalmente o seu amor por George.

Claro que contado assim não tem qualquer poesia. Estou a seguir as cenas de memória. Sim, vi e revi o filme, mas a forma como o gravamos é sempre tão pessoal!

 

 

 

(1) Se até o sombrio Nietzsche não lhe ficou imune! Como leio n' O Consolo da Filosofia de Alain de Botton: ... no Outono de 1876, Nietzsche viajou para Itália e sofreu uma mudança radical de mente. Aceitou um convite de Malwida von Meysenbug, uma rica dama de meia-idade entusiasta pelas artes, a passar alguns meses na sua companhia e de um grupo de amigos numa 'villa' em Sorrento, na baía de Nápoles.

'Nunca o vi tão animado. Ria alto por puro prazer', relatava Malwida a respeito da primeira reacção de Nietzsche à 'Villa' Rubinacci, situada numa avenida arborizada no extremo de Sorrento. ... (Botton, Alain de - O Consolo da Filosofia, Publicações D. Quixote, 3ª edição, pág. 245)

No Cinema, também David Lean nos revela esse fenómeno em A Passage to India mas com um impacto mais intenso e perturbador.

 

(2) Bem, em linguagem de cinema dá-se sempre uma ajudinha aos encontros, não é?, uma batota deliciosa que a realidade não dá, como sabemos por experiência própria.

 

(3) Sobretudo nesta época, transição do séc. XIX para o XX, em que, na mulher, as dimensões familiares ("afecto", "casamento", "maternidade") eram valorizadas, e as dimensões sociais ("educação", "intelecto", "trabalho"), desvalorizadas e às vezes até desprezadas.

 

 

 

Interessante coincidência: Hoje, dia 24, ao espreitar no IMDB para verificar as Tags, descubro que tanto A Room With A View como A Passage To India se baseiam em novelas de E. M. Forster ( escritor inglês nascido em 1879). Interessante, porque tinha referido igualmente A Passage To India do David Lean para exemplificar a influência, o impacto da natureza de um lugar sobre a natureza humana, em ambos na personagem feminina principal.

Igualmente no IMDB confirmo, como filmes baseados em novelas de E. M. Forster, dois outros filmes, realizados igualmente por James Ivory, de que gostei muito: Maurice e Howards End. Espero ainda pô-los a navegar neste rio...

 

 

 

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publicado às 23:13

Jane Eyre

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.04.09

 

Jane Eyre fascinou-me na adolescência. Aquelas personagens! A rapariguinha com aquela força de carácter! Parecia mais um espírito andarilho do que uma mulher. E no entanto... tão capaz de paixão e de afectos!
E Rochester... o sombrio Rochester...


Vi recentemente o clássico Jane Eyre com a Joan Fontaine e o Orson Welles. O filme não me impressionou por aí além.
Por isso me agradou tanto ver na Rtp2, e por duas vezes, uma excelente série para televisão. (1) Muito equilibrada, os actores bem dirigidos, as cenas muito bem concebidas. E uma Jane e um Rochester muito comoventes. Aquele final feliz...

Porque me tocou tanto esta Jane andarilha e este Rochester sombrio?
Um Rochester sombrio, preso ao passado, a querer viver o amor... E aquela frase: Não somos do género platónico...
E não são. Os reencontros entre risos e lágrimas, “dois irmãos gémeos”. E a comunicação à distância: Espera por mim...


Acho enternecedora a forma como estas escritoras construíram personagens femininas tão fortes, decididas, cultas e autónomas. E como os homens, enquanto personagens, as aceitam como iguais.
Terá sido assim com Charlotte Brontë ou ter-se-á projectado num futuro idealizado? (2)

Também enternecedora esta filosofia tão feminina da generosidade, da distribuição dos bens por todos, de colocar a família à frente do individual.
E como acaba tudo bem. Jane, Rochester e o filho. E a recuperação de alguma da visão perdida. E a família toda unida, finalmente.
Depois de todas as atribulações, desencontros, solidão, sofrimentos, é assim que eu gosto de ver tratadas as minhas personagens bem-amadas.

 

 

 

 

(1) Série de 2006, realizada para televisão, por Susanna White. A adaptação do romance de Charlotte Brontë por Sandy Welch e magníficos actores nos principais papéis: Ruth Wilson (Jane Eyre) e Toby Stephens (Rochester). Se bem que o Rochester do livro não devia ser tão jeitoso, mas enfim... este Rochester é o mais agradável de todos os Rochester que vi... e assim para sempre ficará ligado, na minha memória, ao Rochester do livro.


(2) Brontë, name of three Englisn novelists – the sisters Charlotte Brontë (1816-55), Emily (Jane) Brontë (1818-48), and Anne Brontë (1820-49) – who's works, transcending Victorian conventions, have become beloved classics. All three, and their brother (Patrick) Branwell Brontë (1817-48), were born in Thornton, Yorkshire... . Their father, Patrick Brontë (1777-1861), who had been born in Ireland, was appointed rector of Haworth, a village of the Yorkshire moors... . In 1824, when their mother died, Charlotte and Emily were sent to join their older sisters Maria and Elizabeth at the Clergy Daughters' School in Cowan Bridge; this was the original in which was modeled the infamous Lowood School of Charlotte Brontë' novel 'Jane Eyre'. … In 1831 Charlotte went to school in Ro Head, returning home a year later to continue her education and teach her sisters. She returned to Roe Head in 1835 as a teacher, taking Emily with her. In 1842, conceiving the idea of opening a small privarte school of their own, and to improve their French, Charlotte and Emily went to Brussels, to a private boarding school. The death of their aunt, who had kept house for the family, compelled their return. Emily stayed at Haworth as housekeeper. Anne bacame governess in a family, where she was joined as tutor by Branwell, who had failed first as a portrait painter and then as a railway clerk. Charlotte went back to Brussels, her experiences there forming the basis of the rendering, in 'Villette' (1852), of Lucy Snow's loneliness, possibly the most terrifying depiction of human isolation in English literature. In 1845 the family was together again. … Each sister then embarked on a novel. Charlotte's 'Jane Eyre' was published first, in 1847; Anne's 'Agnes Grey' and Emily's 'Wuthering Heights' a little later that year. Speculation about the authors' identities was rife until they visited London and met their publishers.... 'Jane Eyre' 's popularity has never waned; it is the most impassioned expression of feminism in English. … (em: Funk & Wagnalls New Encyclopedia, 1979, vol. 4)

 

 

 

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publicado às 11:31

"Vou ali abaixo defender os meus direitos"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.09

 

Esta line do Marlon Brando é já perto do final. On the Waterfront deixou-me uma marca para sempre... e logo à primeira. E já o devo ter visto umas cinco vezes...


Aquela atmosfera só podia ter sido conseguida pelo Elia Kazan. Uma atmosfera densa e tensa, do início ao fim. Em que o próprio ar parece ter electricidade.
As imagens são tão poéticas, mesmo toda aquela zona descaracterizada do porto... e aquele parque... e aquelas ruelas sombrias...
E as personagens... De todas, a mais improvável, o Terry Malloy, promissor lutador de boxe profissional, que podia ter sido alguém, como o próprio dirá ao seu irmão corrupto, ao das apostas e das manobras de intimidação do Sindicato. Improvável, por ter crescido entre mafiosos, com os valores distorcidos, mas que lhes resiste sempre, até ao fim. É certo que, para sobreviver até ali, obedecera sempre ao irmão, mas sem passar os limites. Até perceber que não podia ser neutro.
E é uma rapariguinha saída de um colégio de freiras, que lho vai mostrar. É a coragem e a convicção da rapariga que o irão pôr em acção. A rapariga que aparece na sua vida da forma mais estranha: ele sabia quem lhe matara o irmão, era testemunha de um crime. Mas será apenas mais tarde, com a morte do seu próprio irmão, que avançará com a denúncia dos criminosos.


Todas as cenas no telhado, onde Terry cuida dos pombos, são verdadeiramente poéticas... É como se tudo fosse simbólico: o céu (telhado), a paz (pombos), e lá em baixo... a luta e a morte.
Assim como todas as cenas ao longo do parque... aqueles diálogos poéticos... o que se diz, o que fica por dizer e o que fica suspenso...
Todas as cenas destes dois, tão diferentes, e no entanto, tão milagrosamente próximos. De tal forma próximos que é essa proximidade que os irá transformar. Ele, acordar para a revolta e para a exigência dos seus direitos. Ela, para assumir a sua sensualidade e aprender a confiar no amor.


Também é um Padre, o corajoso Father Barry, que lidera a resistência pacífica destes homens explorados e subjugados. E todo o seu discurso nos dirige para os valores cristãos, ali tão esquecidos. É o pai protector, no fundo, que nunca os abandonará. É interessante ver, antes mesmo da possibilidade de uma nova Igreja sonhada, a de João XXIII, esta Igreja do Father Barry, mais próxima da vida real e dos homens que sofrem. A cena no armazém, depois da morte de um homem que arriscou desmontar o controle do Sindicato, em que o Padre se refere a esse Cristo também ele morto pela verdade e dignidade dos homens, é verdadeiramente comovente.


E chegámos à line do rapaz já homem: Vou ali abaixo defender os meus direitos.
A luta final (e desleal) com o Johnny Friendly deixam-no fora de combate, e é um homem ensanguentado e cambaleante que vemos aparecer, passo a passo, para iniciar um novo dia de trabalho nas docas. Já sem o domínio e controle do Sindicato. Porque só assim os outros homens, que ali trabalham, o seguem.

 

Os homens têm esta marca registada do predador-vítima, esta violência hereditária. E da cobardia que se refugia tantas vezes no grupo e que aceita o inaceitável. E que precisa do sacrifício de uma vítima para acordar.
A dignidade conquista-se, essa é outra das mensagens. Nunca é garantida. (Ainda não é a liberdade como a da estátua, a do símbolo americano, porque um homem livre pode escolher e estes homens estão condicionados à vida das docas).
A dignidade de um trabalho, ainda que simples, mede-se pelo seu reconhecimento e pelo respeito da comunidade, e é um bem precioso. E numa altura em que vemos novas formas de exploração do próximo (e de domesticação) é uma mensagem fundamental.


Há milagres da natureza, como este jovem destinado a uma vida irregular e criminosa, mas cuja sensibilidade, pacífica e leal, o liberta dessa programação.


O amor pode surgir de dois mundos diversos e paralelos: a casca protectora de uma família carinhosa e de um colégio fechado (a rapariga) e um meio hostil e violento onde não há afectos mas apenas manipulação (o rapaz).

 

 

 

Aqui também, a navegar...

 

 

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publicado às 08:22

Efeitos colaterais da lua cheia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.03.09

 

Mais do que uma comédia romântica, Moonstruck é uma inspiração, a meu ver, para quem desistiu de arriscar qualquer relacionamento, porque estão todos condenados ao fracasso ou porque não se tem sorte. Esta é a convicção de uma viúva que trabalha como contabilista e vive no casarão dos pais. (E este é o papel da Cher, sem dúvida!)

Moonstruck é igualmente uma fonte riquíssima de lines cómicas, do início ao fim. Animaram-me muitos dias cinzentos. Tantas vezes revi este filme, que acabei por memorizá-las. E penso que ainda as sei de cor.

 

Estas personagens representam alguns tipos de comportamento da comunidade italiana mas, na sua essência, são universais.

A solidão assumida e desencantada de algumas mulheres.

A crise masculina da meia-idade e a conquista de mulheres mais jovens ou mais fogozas.

A mulher traída e negligenciada.

O solteirão menino-da-mamã.

A mãe possessiva e egoísta.

O jovem sensível e revoltado.

O patriarca que se sente confuso com tantas alterações emocionais e afectivas na família.

O casal de meia idade que mantém a paixão e a alegria da juventude.

 

E ainda não cheguei à lua cheia!

 

Voltemos então ao início:

Uma viúva trintona (Cher) janta num restaurante italiano com o namorado, um solteirão menino-da-mamã. Ela própria já assume um papel maternal com este homem. Lá pela sobremesa, ele resolve declarar-se. Ela exige que se ajoelhe. E isto em pleno restaurante. Ele obedece. Ela insiste, refilona: Where is the ring?

Ele improvisa e retira o seu próprio anel do dedo mínimo. Terá de servir por agora.

Ela acompanha-o ao aeroporto. Ele vai à Sicília ver a mãe que está nas últimas... (em breve saberemos que a mãe ficou nesse estado ao saber que o filho ia casar).

Ela dá-lhe conselhos maternais. Ele aceita-os naturalmente. Despedem-se.

Ela fica a ver o avião partir. Ao seu lado está uma velhinha aparentemente inofensiva, vestida de escuro. E diz-lhe que acaba de lançar uma praga sobre o avião para que caia no oceano. É que no avião segue a sua irmã, que lhe roubara o homem que amara na juventude, e que agora até lhe confessara nunca ter gostado dele. Ela não se deixa impressionar, é uma mulher prática: I don't believe in curses...

 

Ela volta a casa, encontra o pai na cozinha e dá-lhe a grande novidade. O pai nem quer acreditar que ela quer casar de novo e logo com aquele big baby!

Vão até ao quarto contar a novidade à mãe (fabulosa Dukakis) que abre os olhos quando os vê entrar e num queixume pergunta: Who's dead?

E o mote está dado. Sempre em crescendo, os acontecimentos precipitam-se, acompanhados por uma magnífica lua cheia!

 

Quem poderia sequer imaginar que um simples convite de casamento, ao único irmão do namorado, iria despertar nela a paixão e revelar-lhe mesmo uma dimensão do amor que nunca tinha vivido? Esta cena é mesmo impressionante! Um jovem atormentado, porque perdera a mão e a noiva e tudo em sequência... e que por toda essa desgraça ainda culpava o irmão... I lost my hand! I lost my girl! I lost my life! And my brother Johnny is getting married! Sim, um jovem sensível e teatral, que mora por cima da padaria onde trabalha e que ouve ópera a toda a hora.

Enquanto ela lhe prepara um bife mal passado, ele coloca o disco a tocar. Ela olha-o tranquilamente a comer com apetite, this is good, e responde às suas perguntas curiosas: sim, fora casada mas teve bad luck, o marido morrera atropelado pouco depois do casamento, não, nunca casara de novo, sim, ia casar com o Johnny... Ele alerta-a para o erro, fora por causa do irmão que perdera a mão, e ela até poderia perder a cabeça.

Bem, a partir daqui terão mesmo de ver o filme!

 

 

 

 

 

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publicado às 20:53

Todo um manual de cinema num breve encontro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.12.08

 

Resolvi aproximar-me timidamente desta obra-prima de David Lean: Brief Encounter. Lembrei-me dele por nos estarmos a aproximar de mais um Natal. Um Natal mais tímido, talvez mesmo mais triste, mas também mais autêntico (pelo menos sem a barulheira histérica de Natais recentes). Claro que eu preferia ver à minha volta toda a gente feliz e próspera! Mas já que temos de encarar uma situação precária e incerta, então que aproveitemos para parar e reflectir no essencial. Essencial que está dentro de cada um de nós: a nossa capacidade de amar. Não estou a propor um brief encounter como solução para todos os males (embora seja uma das soluções mais criativas), mas a ver o amor sobretudo como a capacidade de amar, a maravilhosa sensação de estar vivo!


Tudo começa numa estação de comboios, magnífica metáfora para a vida, como já o disse aqui. Daqueles comboios dos anos 40, com fumo misterioso (tão cinemagráfico!) e o apito estridente! Temos o cenário ideal para os nossos heróis que estão prestes a ser surpreendidos por uma partida da vida. Ela é uma mulher da classe média, casada e com dois filhos, vida calma, organizada e acolhedora, muito à inglesa. De vez em quando vai à cidade (Londres?) às compras ou simplesmente para se distrair. Nessa noite, em que mais uma vez regressa a casa, tudo vai ser diferente. Um simples cisco de uma fagulha num olho, leva-a a voltar, aflita, ao bar da estação e a pedir ajuda. E é um médico (ele) que lhe retira o cisco incómodo. Sim, o gesto mais natural deste mundo. Só que, de imediato, surge entre eles uma afinidade estranha, um magnetismo qualquer, porque combinam encontrar-se de novo ali, na estação.


Estação de comboios = intervalo das suas vidas, espaço-tempo onde contarão as suas histórias, falarão das coisas simples que a mais ninguém se dizem. A magia do amor atinge-os em cheio. Já não lhe podem escapar. Bem, estamos nos anos 40 e numa sociedade muito convencional. Não se admirem, pois, se os virem hesitar em avançar na aventura! Hesitam e não ultrapassarão aquele limite a partir do qual seria mais difícil voltar atrás.


Triste triste será a decisão da despedida. Ele seguirá para África onde poderá dedicar-se à sua medicina (já não me lembro bem se na prevenção, um dos sonhos que lhe confiara, se no tratamento de doenças infecciosas). Ela voltará à sua vida tranquila, organizada e familiar. Mas mais triste ainda será a despedida, porque são interrompidos, de forma brusca e indelicada, por uma conhecida da nossa heroína que fala pelos cotovelos. Nem aqueles últimos minutos serão deles... isso é o mais triste de tudo. Aqui David Lean consegue deslumbrar-nos (ou lembrar-nos?): momentos de uma tristeza assim, insuportável, avassaladora, que nos invade até à última célula! O som estridente do aviso da partida do comboio... ele toca-lhe no ombro, ao de leve, e afasta-se... Para sempre. Será assim a sua despedida na estação.


Comboio = a vida, vidas que se perdem, vidas apeadas, vidas à espera, vidas que se cruzam, vidas que partem, vidas que ficam... A mulher tagarela continua no seu monólogo, insensível a tudo, uma voz irritante como conhecemos tantas. A nossa heroína contém as lágrimas. E então outro recurso de David Lean para nos mostrar a dor insuportável destes desencontros emocionais e afectivos: já no comboio, sobrepondo-se à voz da mulher, acompanhamos os pensamentos da nossa heroína. E vemos o reflexo do seu rosto no vidro da janela, enquanto o comboio se desloca e os distancia cada vez mais.


Quando voltarem a este filme, reparem bem no cenário, nos planos, no preto e branco, nos recursos poéticos de David Lean, no som estridente do apito do comboio, no fumo misterioso que os envolve... E digam-me se não estamos perante uma obra-prima que é todo um manual de cinema quando o cinema se ultrapassa a si próprio. E isso é arte! É arte viva!


A cena final é de novo muito inglesa: uma vida em que tudo é rotineiro, que contrasta com essa outra possível, de emoções fortes. O marido comenta vagamente que a achara diferente nos últimos dias e que estava contente por ela ter voltado. A tranquilidade de uma vida acompanhada, prevista, sem sobressaltos. Um marido fiável e compreensivo. Cada um no seu sofá,
os miúdos já deitados. Não sei porquê, esta cena lembra-me sempre o Natal: chegar a casa ou, neste caso, voltar a casa.

 

 

 

Obs.: Na noite em que alinhavei este texto sobre Brief Encounter, realizava-se "uma cerimónia de homenagem a Celia Johnson" (P2 do Público, 22/12) pelo centenário do seu nascimento (18 de Dezembro de 1908). Adoro coincidências...

 

Dias depois: Olhem só o que descobri hoje (dia 26)! Uma fotografia no Atlântico, desse breve encontro! Com um texto tão poético e nostálgico!

 

 

 

 

 

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publicado às 19:34

Quando uma natureza bravia e uma natureza pacífica se encontram

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.11.08

 

A força da natureza. A lógica do progresso. Uma ilha incómoda. E a descoberta do desejo, também ele indomável. Um encontro que se revela criativo. Wild River.


Voltei a descobrir este filme, desta vez na RTP Memória. Desde que o vi pela primeira vez que me tocou de uma forma estranha. Como capta a força indomável da natureza, a cor outonal, os sons... E as personagens, os diálogos contidos, os gestos expressivos... Há qualquer coisa de muito terreno, selvagem e poético neste filme! A terra e a alma estão ligadas, na avó da jovem mulher. A própria mulher é um pouco bravia, como aquele lugar. Eu sei que somos muito diferentes, dirá ela ao homem da barragem, que vem para resolver a resistência à abertura da comporta. Talvez... mas a sua paz (a dele) é mais aparente do que real. E às vezes só se encontra a tranquilidade aceitando e vivendo as tempestades interiores (neste caso, são mais chuvadas, está-se em Outubro).

Bem, nesta altura já deu para perceber que o filme me tocou mais do que a maioria dos filmes... Talvez porque o meu lugar é, também ele, assim bravio: montanhas isoladas, de pinheiros bravos e ribeiras tumultuosas... Sim, e perto, uma barragem também, também assim azul...


Voltando ao Wild River: A avó de uma jovem mulher, viúva com dois filhos, recusa-se a sair da ilha onde sempre viveu. Permanecerá ali, teimosamente, até a obrigarem a sair. Vemos, no seu último olhar desesperado para a árvore que cai, que alguma coisa dentro de si também começou a cair... E mesmo que a nova casa também tenha um alpendre, como o homem da barragem quis que fosse respeitado, para lhe agradar... não durará muito, adormecerá na cadeira, nesse alpendre, de desgosto. O empregado fiel aguardará ali perto, talvez porque pressinta o fim. Um pormenor em que só desta vez reparei.


Há momentos verdadeiramente mágicos! Como eram contidos e, ao mesmo tempo, tão intensos, os filmes desta época! E como se conseguiam exprimir emoções e sentimentos de forma tão minimalista. Elia Kazan é exímio nessa atmosfera carregada de desejo. Tudo no ritmo certo, nos gestos, na coreografia. A agitação é interior, está quase a explodir, já a sentimos no ar. Depois desse encontro, ela volta na barcaça. Despedem-se de longe. Vemos no seu sorriso que tudo está diferente. Eles mudaram. E será assim a partir daí. Até ele descobrir que não é assim tão auto-suficiente... que (também ele) precisa dela.
Não é fácil amar-te, dir-lhe-á ela. Mas eu amo-te... eu amo-te... Está à sua frente, tão franca e vulnerável, tão altiva e comovente. Sim, orgulhosa de amá-lo, mesmo podendo perdê-lo. Sei que em breve te vais embora, tinha-lhe dito. Leva-me contigo.


Sim, há qualquer coisa de bravio neste filme. E de poético também. Talvez seja essa a força da natureza, a que o homem pacífico não irá poder resistir. Não apenas se apaixona pela jovem mulher, como aceitará o seu desafio e da forma mais inesperada possível. Talvez por ver como ela o defendeu, como uma gata selvagem, naquela luta em que mais uma vez perde. Gostava, por uma vez que fosse, de ganhar uma luta... Ela diz-lhe que isso não é importante. Ali estão, no meio da lama onde tinham caído, lado a lado. E então o homem pergunta-lhe se quer casar com ele... que ele provavelmente se irá arrepender e que certamente ela se arrependerá... Mais inesperado do que isto é impossível.


Sim, o homem ganha uma família instantânea, como já lhe tinha dito, de forma sarcástica, um dos manda-chuvas do sítio. O mesmo que lhe batera forte e feio. Estes indivíduos exemplificam, na perfeição, a rudeza e a rigidez de alguns lugares provincianos. Também é aqui visível o racismo, em que não há igualdade de tratamento nem de salários. Esse é, aliás, um dos pontos de fricção cultural: o homem da barragem insiste em furar aquelas normas absurdas e paga exactamente o mesmo a todos os que contrata. Aqui também podemos medir a sua coragem na medida inversa à sua habilidade e força física. Torna-se especialista em levar pancada. Sim, podemos medir aqui a sua coragem na forma como se sujeita à violência física, não abdicando dos seus princípios.

 

Em Wild River a natureza está sempre presente. De certo modo, a natureza acompanha as emoções das personagens, as suas tempestades interiores. A fotografia e o som, sempre a lembrar-nos que tudo isso também está a acontecer dentro de nós, uma chuvada, um rio que se atravessa, uma ilha que se abandona, uma árvore a tombar…
O ritmo também acompanha as emoções de muito perto. E mesmo que algumas cenas nos pareçam suspensas no tempo, em que só se sente a respiração das personagens, diríamos que numa linguagem e num tempo mais próprios do teatro (e isso é muito Elia Kazan), ainda assim estamos na linguagem do cinema, no tempo do cinema, quando se cruza com o teatro de forma perfeita.
As personagens e os actores, os actores e as personagens, confundem-se aqui. Lee Remick é a viúva um pouco bravia. Montgomery Clift é o homem pacífico. Jo van Fleet é a mulher da ilha, de um território, raiz de uma árvore ancestral que o progresso arranca sem-cerimónia nenhuma.
A natureza e o progresso, a natureza e o homem, num equilíbrio instável. Em Wild River até a barragem parece ligar-se de forma poética às montanhas que a envolvem. Mas será possível dominar um wild river?

 

 

 

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publicado às 13:48

A valsa do reencontro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.10.08

Há a valsa do encontro. E há a valsa do reencontro.

 

Before Sunset: ambos rodopiam, primeiro filosofam, depois tornam-se mais poéticos, sonhadores, nostálgicos... a seguir brincam, ironizam, o riso ganha outro sentido... e tudo num dia e numa noite.

Também será assim no reencontro. Before Sunrise: a filosofia, o lado poético e sonhador, a nostalgia e a cumplicidade... e a descoberta incrível de que ainda são os mesmos, a magia está lá, uma mistura de alegria e tristeza, de receio e alívio, de revolta e compreensão.

É comovente ver como a valsa dos encontros e dos reencontros é universal. Como os passos, inicialmente hesitantes, se vão harmonizando, ganhando confiança, ritmo, asas.

É talvez por isso que, ao vê-los valsar, não nos sentimos intrusos. Identificamo-nos com aquela valsa.

 

Voltando ao encontro. Um dia e uma noite em Viena.

Será possível que um encontro, mesmo fora do nosso território e dos nossos hábitos, ou precisamente porque é fora do nosso território e dos nossos hábitos, nos toque assim tão profundamente?

Lembro-me de um outro filme assim, The Clock, só que aí eles não se separam, adiam a hora da separação, passam o filme a adiá-la aliás, e por pouco se desencontram, mas acabam por se reencontrar perto do tal relógio, onde se tinham conhecido. Para não voltar a desencontrar-se.

Aqui a ligação é a mesma, há uma chamazinha que se insinua logo, e pior!, uma ternura, o laço mais difícil de quebrar, porque nasce num lugar que tem raízes profundas na infância, nos sonhos e valores mais acarinhados.

Sim, como no The Clock, até nos pormenores: a simplicidade de uma conversa, de uma caminhada a pé, uma companhia agradável, emoções e sentimentos genuínos que se revelam, um olhar, um sorriso, uma entoação de voz...

Neste Before Sunset os dois filosofam mais, não páram de filosofar aliás. Deambulam pela cidade como se o tempo fosse eterno. Prolongam a conversa pela noite. A noite torna-os poéticos. A cidade surge-lhes mágica. Terminam a noite num parque, a olhar as estrelas. De manhã despedem-se na estação de comboio. Comboio: metáfora terrível para a vida, para o seu encontro e para o seu desencontro. Prometem voltar a encontrar-se daí a seis meses. Sim, como naquele filme... An Affair to Remember...

 

Interrompo aqui entre o desencontro e o reencontro... Ah, o reencontro...

 

O seu reencontro em Paris, 9 anos depois...

Ficamos com curiosidade: quem falhou ao encontro? Ela? Ele? Os dois?

Antes de saber quem falhou ao encontro, acompanhamo-los pelas ruas de Paris. E de novo, tal como em Viena, a conversa surge, natural. Conversam sobre tudo, as suas actividades, os seus hábitos, os seus valores, por onde andaram e o que andaram a fazer...

Sim, tal como em Viena, fartam-se de falar e de filosofar. De certo modo, é uma forma de reduzir a ansiedade e as dúvidas.

No início só falam das suas vidas e de como as levaram para a frente: ela, activista na área ambiental, ele, como escritor.

A pouco e pouco aproximam-se dos temas mais pessoais: os afectos, emoções, sentimentos. O que o seu encontro em Viena significou nas suas vidas. O que seria se não se tivessem desencontrado... Como sentiram esse desencontro. Como o (não) superaram.

E ficamos a saber... que foi ela que falhou ao encontro combinado. A avó morrera por esses dias, em Budapeste. E também ficamos a saber que ele teve uma trabalheira para proporcionar uma hipótese, ainda que remota, de se reencontrarem um dia.

Tal como uma valsa, que ela lhe irá cantar porque ele insiste em ouvi-la cantar, vão rodopiando, rodopiando em círculos...

Ela dir-lhe-á que no fundo é a mesma, que as pessoas não mudam no essencial. E nós vemos isso. Eles não mudaram assim tanto desde o seu encontro.

 

Há cenas verdadeiramente poéticas e comoventes:

- No jardim ele brinca com a ideia de aproveitar os últimos minutos a amá-la furiosamente. Ela finge não perceber como ele se tenta aproximar e vai mantendo barreiras subtis.

- No barco turístico pelo Sena ela dir-lhe-á que lhe doem sempre as separações porque, para ela, as pessoas são insubstituíveis. Mesmo e sobretudo pelos pequenos pormenores. Com ele, tinha sido a forma como o sol tinha brilhado na sua barba ruiva, no queixo, quando se despediram no comboio.

- Ainda no barco e à saída, quando se deslocam para o carro que o levará ao aeroporto, e depois ao longo desse percurso, ele falar-lhe-á da mulher e do filho. De como é pelo filho que procura manter a estabilidade. Que é com alguma pena que vê o amor fugir-lhes, como muitos casais em que o amor passa a ser pouco frequente, como se começam a distanciar... Que desejaria que tanto ele como a mulher fossem felizes... Ela fita-o, atónita. A imagem que tinha dele era a de um homem feliz: Pensamos sempre que só nós somos infelizes.

- E ainda nesse percurso de carro, ela confessará finalmente lembrar-se que se tinham realmente amado no parque, duas vezes, a olhar as estrelas.

E tal como em The Clock a despedida adiada, adiada, adiada. Mas ele insiste em ouvi-la cantar.O amor não é domesticável, isso ficamos a saber.

O difícil é vivê-lo, sem o querer domesticar.

O amor é uma espécie de milagre, isso também ficamos a saber. Uma probabilidade num milhão de se encontrarem, e depois muito mais provável o desencontro.

E poucos se reencontram assim. Mesmo que consigam voltar a encontrar-se, já são outros, são diferentes, a vida e os afectos passaram por eles, já não se conseguem reconhecer um no outro.

O amor também pode passar ao lado dos distraídos. E a vida e o mundo distrai-nos sempre.O amor é uma valsa. No encontro e no reencontro.Sabemos que o encontro e o reencontro é só deles. Mas também é nosso, de certo modo.

 

 

 

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publicado às 15:27

A inteligência original e as suas infinitas possibilidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.10.08

 

Pensava que a única grande contrariedade de Beethoven tinha sido a surdez. Mas não.

Uma infância de maus tratos (um pai violento).

Uma juventude em que revela o seu carácter obsessivo, possessivo, ciumento e cruel.

Até à velhice são paixões, desencontros amorosos, decepções, sofrimento, humilhações.

Conhecerá a doçura. Mas muito mais tarde. E não por muito tempo.

 

Immortal Beloved fala-nos essencialmente de um amor secreto de Beethoven. Uma das mulheres que passaram na sua vida terá sido por ele amada de forma intensa, excessiva, inteira.

O filme está construído de uma forma engenhosa. Há uma personagem que serve de elo de ligação com o passado. E há uma carta para uma única destinatária.

As mulheres da vida de Beethoven revelam, curiosamente, diferentes dimensões da natureza feminina: a mulher-companheira e que procria; a mulher sensual e sofisticada; a mulher forte e terna, porto-de-abrigo.

Também engenhosa a forma como as suas peças musicais acompanham as cenas mais significativas, as emoções e os sentimentos envolvidos.

 

Mas não é esta a minha parte preferida do filme. Foi Beethoven-criança, a sua incrível inteligência original, que não tem limites nem fronteiras.

Essa qualidade universal da inteligência que geralmente se perde pelo caminho da domesticação e normalização social. E no caso do nosso Beethoven... da estupidez e violência. Que ele vence. O que, só por si, é um verdadeiro milagre.

E isso é doloroso de ver. O filme dá mesmo a entender que a sua surdez terá sido provocada pelos maus tratos do pai e que se terá agravado com a idade.

Registei para sempre a correria nocturna da criança pela floresta, que aqui nos surge como acolhedora, até chegar a um lago e nele entrar e ficar a flutuar enquanto fixa os pontos luminosos de um universo infinito...

É essa imagem que me fica do filme. Uma criança a flutuar no lago e a fixar um céu de pontinhos luminosos.

É esse Hino à Alegria que nos leva de imediato a um tempo-espaço onde não havia limites nem fronteiras nem violência. A um tempo-espaço em que estamos todos estranhamente irmanados por uma inteligência universal que tudo envolve e que se expande.

É também para esse tempo-espaço que Beethoven, na sua surdez desesperada, consegue transportar-se. Beethoven mantém essa inteligência original. Esse é o verdadeiro milagre. Essa inteligência original vence a surdez, a violência, as suas tempestades interiores.Foi assim que eu o vi.É que a vida e a nossa terrível natureza está sempre a puxar-nos para a mediocridade e a negação dos sonhos. É preciso puxar ao contrário, contrariar o conformismo. E fixar o olhar no infinito.

 

 

 

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publicado às 16:19


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